Biografia
|
Nascida em São Paulo, no bairro de Santa Cecília, em 19 de abril de 1923, Lygia Fagundes Telles foi a terceira mulher a tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Eleita em 24 de outubro de 1985 para suceder Pedro Calmon, a escritora tomou posse em 12 de maio de 1987 e ocupa a cadeira número 16. Iniciou sua carreira como escritora – inicialmente como contista – em 1938, quando publicou Porão e Sobrado, reunião de 12 contos. Seu primeiro livro foi financiado por seu pai. No ano seguinte, termina o curso fundamental no Instituto de Educação Caetano de Campos, na capital paulista. Ingressa em 1940 na Escola Superior de Educação Física, também em São Paulo. Ao mesmo tempo, freqüenta o curso pré-jurídico – curso preparatório para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. |
Lygia Fagundes Telles. Fazenda Santo Antônio, Araras (SP), 1956. Acervo Lygia Fagundes Telles - IMS. |
|
Passeata contra Getúlio Vargas. Largo de São Francisco. As alunas iam na frente com a bandeira brasileira. Atrás, os moços segurando o estandarte do Centro XI de Agosto. São Paulo, 1944. Acervo Lygia Fagundes Telles - IMS. | Em 1941, mesmo ano em que conclui o curso de Educação Física, Lygia Fagundes inicia o curso de Direito e passa a freqüentar as rodas literárias que aconteciam em restaurantes, cafés e livrarias próximas à faculdade. Conhece Mario e Oswald de Andrade, e Paulo Emílio Salles Gomes, entre outros intelectuais da época. Nesse período, integra a Academia de Letras da faculdade e colabora com os jornais acadêmicos A Arcádia e A Balança. Publica em 1944, Praia viva, sua segunda coletânea de contos. Três anos depois, conclui o curso de Direito. Em 1949, publica seu terceiro livro de contos, O cacto vermelho, pelo qual recebe o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. Apesar do sucesso de seus primeiros trabalhos, Lygia Fagundes não os reedita mais, pois os considera superados, meros exercícios literários. |
|
Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. 1960. Acervo Lygia Fagundes Telles - IMS | Em 1950, a escritora casa-se com o jurista Goffredo da Silva Telles Júnior, na época deputado federal. Muda-se então para o Rio de Janeiro. Retorna à capital paulista em 1952, quando começa a escrever seu primeiro romance, intitulado Ciranda de pedra, publicado em 1954, ano em que nasce seu filho Goffredo da Silva Telles Neto.
Separa-se do marido em 1960. No ano seguinte, começa a trabalhar como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Em 1967, a convite do cineasta Paulo César Sarraceni, e em parceria com Salles Gomes, Lygia Fagundes faz a adaptação para o cinema do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. O trabalho de adaptação foi publicado em 1993, sob o título de Capitu. |
|
| Lygia Fagundes Telles e Paulo Emílio Salles Gomes. Paris, 1976. Acervo Lygia Fagundes Telles - IMS
|
|
|
A ficção de Lygia Fagundes Telles possui características do período conhecido como Pós-45. Alguns estudiosos defendem que sua obra pertence à Geração de 45 – denominação dada a um grupo de escritores, especialmente poetas, que surgiram na literatura brasileira na década de 1940, cuja atitude estética foi a de reagir contra o clima da primeira fase modernista. Contudo, o caráter ficcional de sua obra sintoniza com o existencialismo - vertente cultural da época - além de correntes literárias como o expressionismo e o surrealismo. A escritora, porém, sempre acompanhou as mudanças existenciais, políticas e sociais que ocorreram ao longo de sua carreira. | Lygia Fagundes Telles. Foto: Liliana Giusti Serra. São Paulo, 1993. |
|
Sua obra versa sobre as experiências humanas, sobretudo as experiências interiores. É através da solidão – drama particular da maioria de seus personagens – que ela nos apresenta, através da análise dos sentimentos e das percepções de suas personagens, o conflito entre o mundo objetivo e o subjetivo, o real e o ideal. A autora utiliza monólogos interiores – recurso estilístico paraliterário, também chamado fluxo de consciência - como fonte de conhecimento das personagens. O desenrolar das tramas é estruturado em detalhes calculados, deixando em cada gesto marcas de uma personalidade ou de uma situação. A configuração física do ambiente nos enredos é secundária, o foco é a posição interna assumida pelas personagens diante dos episódios. |
|
É assim em Ciranda de pedra, primeiro romance da autora. Virginia, personagem principal, é uma garota solitária, filha de pais separados. Após a separação dos pais, vai morar com sua mãe, que logo adoece. Virgínia passa a morar com os pais e as duas irmãs, num ambiente movimentado e hostil. O nome que dá título ao livro refere-se a uma roda de anões de pedra que ornamenta o jardim da casa, ciranda da qual Virgínia não pode participar. A ciranda de pedra representa simbolicamente o mundo interior da personagem e encerra o núcleo do tema: o sentimento de rejeição. O tema da rejeição está presente também em O verão no aquário, segundo romance da autora, onde o centro das tensões também é a família. O foco dessa análise psicológica profunda está sempre nas personagens femininas. As personagens masculinas da literatura de Lygia Fagundes Telles são, geralmente, representantes simbólicos de funções sociais ou de poder, riqueza e status, não possuindo contornos marcantes como as femininas. |
|
Capa da primeira edição do livro Ciranda de Pedra, 1954. |
Capa da primeira edição do livro O Verão no aquário, 1963. |
| Engajada politicamente, a escritora sempre deixou clara a sua preocupação em relação às questões políticas e sociais e ao papel do escritor enquanto formador de opinião. Sobre o ato do escritor de escrever sobre seu tempo, Lygia Fagundes Telles, em entrevista à revista Cult, de junho de 1999, diz: | ||
|
|
Condecoração do Chile. Brasil+500 - Mostra do Redescobrimento. | Em As meninas, seu terceiro romance, escrito no final da década de 1960 – período mais violento da ditadura militar – e publicado em 1973, Lygia Fagundes Telles nos apresenta a história de três moças que se conhecem num pensionato, Lorena, Lia e Ana Clara. Em meio às vivências, objetivas e subjetivas das personagens, a autora apresenta relatos de tortura física e de violenta repressão, retratos fiéis da época. As meninas foi premiado com o prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e na categoria 'Ficção' da Associação Paulista de Críticos de Arte, sendo posteriormente adaptado para o cinema e o teatro. Dirigido por Emiliano Ribeiro, o filme baseado em As meninas estreou em 1996.
|
|
Capa da primeira edição do livro As Meninas, 1985. |
|
Tema de numerosos artigos, ensaios e trabalhos acadêmicos, Lygia Fagundes Telles configurou-se como um grande sucesso de público e de crítica, tendo suas obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco e adaptadas no Brasil para o cinema, teatro e TV. Teve suas obras publicadas também em Portugal, onde é correspondente desde 1987 da Academia de Ciências de Lisboa. |
| Capa da edição francesa de As horas nuas, 2000. |
Capa da edição holandesa de As meninas, 1998. | Capa da edição dinamarquesa de As horas nuas, 1991. | Capa da edição russa de Seminário dos ratos, cujo título em russo é A mão no ombro, 1986. | |||||
|
Lygia Fagundes Telles foi tema da série O escritor por ele mesmo, de 1997, e do quinto número dos CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA em 1998, publicações do Instituto Moreira Salles. Sua coleção particular foi incorporada ao IMS em outubro de 2004 e é formada por mais de mil itens, entre livros, periódicos, artigos e vídeos, além de prêmios, medalhas, placas comemorativas e a máquina de escrever da autora. |
|
Outros livros de contos de Lygia Fagundes Telles: • Histórias do desencontro, 1958; |
Lygia Fagundes Telles. São Paulo, 2002. Acervo Lygia Fagundes Telles - IMS. |
| Em comemoração ao aniversário de Lygia Fagundes Telles é que a Biblioteca do Instituto Moreira Salles homenageia a autora, uma das melhores representantes femininas da literatura brasileira. |
|
Referência http://www.acad-ciencias.pt/academicos/lftelles.html INSTITUTO MOREIRA SALLES. CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, n. 5: Lygia Fagundes Telles. São Paulo: IMS, 1998. |
Pesquisa: Maria Inês Rivaben Ricci e Maria Paula Galdino Miyashiro
Texto: Maria Paula Galdino Miyashiro











