Paulo Rónai - 100 Anos
| Hungria Paulo Rónai nasceu em Budapeste em 13 de abril de 1907 e fez seus estudos na capital húngara. Formou-se em Literatura e Línguas Latina e Neolatina em 1923 na Universidade Loránd Eötvös. Sua vida foi sempre cercada por livros e curiosidade sobre idiomas. Filho do livreiro judeu Miksa Rónai, desde os 7 anos já nutria uma grande vontade de decifrar línguas. Rónai conta em Como aprendi português e outras aventuras que, adolescente, alimentava “em segredo a esperança de assenhorear-me, com o tempo, do maior número possível de idiomas: vinte, trinta, talvez ainda mais.” Um de seus professores lhe assegurou que “só os 15 primeiros eram difíceis”. E nessa empreitada, o jovem estudioso, em seus passeios pelos sebos europeus, adquiria os mais diversos livros e gramáticas para estudá-los depois. Principiou o estudo de várias línguas, dentre elas o hebraico, o finês (língua da família magiar que os candidatos a professor de húngaro precisavam saber), o sânscrito, o dinamarquês (o qual não foi além da primeira aula) e o turco. Porém, por razões diversas - “falta de tempo, de entusiasmo, de perseverança”, conforme relata no mesmo livro - o poliglota, versado em muitas línguas, lamenta não ter aprendido todas elas. | ||
| Professor de latim e língua italiana em colégios de Budapeste, Rónai também se especializou em literatura francesa ao defender uma tese sobre Balzac, em 1930. E, com bolsa de estudos do governo francês, passa uma temporada entre 1930 e 1932 na Sorbonne. Neste período, por causa de uma coleção de poesia de línguas latinas que conheceu na França, tem seu primeiro contato com a língua portuguesa, através de As cem melhores poesias da Língua Portuguesa, antologia organizada por Carolina Michaëlis, encomendada em um sebo de Paris. E a curiosidade por este idioma, a primeira vista fácil, tornou-se uma paixão. Com auxílio de um dicionário de português-alemão, começa a aprender este idioma que dava a ele “a impressão de um latim falado por crianças ou velhos, de qualquer maneira gente que não tivesse dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes?”, ou uma língua “alegre e doce como um idioma de passarinhos”, como dizia um escritor húngaro conhecido de Rónai. E é este mesmo português que o professor diz, geralmente, que não aprendeu e provavelmente nunca aprenderá, apesar de se exprimir com naturalidade e até pensar neste idioma. |
O escritor aos 3 anos (centro) com seus irmãos Jorge (9 meses) e Clara (2 anos) | |
| Com a Antologia de Poetas Paulistas, que recebeu de uma livraria húngara de São Paulo, tem início a sua história com a literatura brasileira. Suas inquietações e as muitas dúvidas a respeito do idioma o fizeram conhecer Ribeiro Couto que, por meio de cartas, explicava o significado de certas palavras a que o dicionário não fazia referência, ou cuja significação era insuficiente para o entendimento de um estrangeiro. Paulo Rónai já demonstrava sua preocupação em traduzir as palavras de forma que o conceito original possuísse equivalência no espírito da língua traduzida. E o tradutor nos dá alguns exemplos em Como aprendi o português. Sobre a palavra dezembro, explica: “december, etimologicamente idêntico, mas que evoca noções de gelo, neve e miséria, não poderia sugerir a nenhum leitor húngaro a imagem de um Natal carioca, tórrido e abafado.” Um outro caso é relacionado à palavra Nordeste. Escreve Rónai: “foi necessário uma longa carta de Ribeiro Couto (então secretário da Legação do Brasil na Holanda) para dar-me uma idéia aproximativa do complexo sentido geográfico, antropológico, sociológico e, sobretudo, poético dessa denominação. Com sua compreensiva inteligência, o poeta de Província esboçou um sucinto retrato espiritual da região nordestina, da qual, à falta de outra documentação, me desenhou um mapa esquemático” (p.14). Em 1939 publica a primeira tradução de literatura brasileira na Europa Central Mensagem do Brasil: poetas brasileiros contemporâneos. Nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Mário de Andrade, mesmo não muito conhecidos aqui ainda, eram celebrados em Budapeste. Também é da autoria de Rónai, provavelmente, a primeira versão do emblemático poema de Drummond “No meio do caminho” para uma língua estrangeira. Mas, quatro dias depois da publicação do livro de Rónai, tanques alemães invadiam a Polônia, e o Brasil e sua literatura, que começavam a serem conhecidos no exterior, foram encobertos pelo horror da guerra que se aproximava.
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RÓNAI, Paulo. Como aprendi o português e outras aventuras. São Paulo: Globo, 1992
| Prisão e fuga Paulo Rónai, por ser filho de judeus, sofreu perseguição do governo húngaro pró-nazista. Preso em um campo de trabalho numa ilha do Danúbio, foi obrigado a trabalhar como escravo na demolição de um edifício e na construção de outro idêntico a poucos metros do mesmo local, sem ferramentas. Durante o inverno, os prisioneiros puderam sair da ilha - o professor aproveitou este momento para fugir da Hungria. Os que voltaram ao campo de concentração não tiveram a sorte de sobreviver. Graças ao intermédio de Ribeiro Couto, na época cônsul do Brasil na Holanda, e aos serviços prestados à literatura brasileira, ao divulgá-la em seu país, Rónai consegue uma permissão para visitar o Brasil com direito a uma bolsa de estudos por um ano, a pedido do Itamaraty. Em 28 de dezembro de 1940, embarcava para o Brasil, passando antes por Lisboa, única saída da Europa àquele momento, e finalmente aporta no Rio de Janeiro em 3 de março de 1941. Em certa medida, já conhecedor do português, a expectativa da nova experiência lingüística o consolava. Contudo, nas seis semanas que ficou em Portugal, sofreu grande decepção com a língua falada nas ruas, da qual nada entendia, compreendendo-a apenas em jornais e revistas. | |
| Este tormento, levado consigo na viagem, se desfaz quando chega em terras brasileiras, como relata depois em Como aprendi o português: “Que alívio logo de entrada! O Brasil recebia-me com uma linguagem clara, sem mistérios... Ainda não desembarcara, e já não perdia nenhuma das palavras...O deslumbramento continuou na rua, no primeiro táxi, no hotel. O idioma que eu aprendera em Budapeste era mesmo o português!”. A amizade com o idioma gerou muitos trabalhos e enriquecimento aos estudos de nossa língua, principalmente na área da tradução
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| Primeiros anos no Brasil, as amizades e as traduções Logo nos primeiros 10 dias no Brasil conheceu Aurélio Buarque de Holanda. O encontro inusitado deu-se na redação da Revista do Brasil, onde Aurélio Buarque era secretário e Rónai fora levar um artigo cujo título era “Viajantes húngaros no Brasil”, para tentar publicá-lo. Aprovado o artigo, que Rónai teve de traduzir pois o apresentou em francês, o revisor apontou vários erros de português, mas, ao saber que o magiar estava no Brasil havia apenas poucos dias, pôs-se a ensinar o que deveria ser corrigido. Deste encontro nasceu uma longa e forte amizade, que durou mais de 40 anos. Os dois amigos realizaram muitos trabalhos em conjunto, como a tradução dos contos de Mar de histórias: antologia do conto mundial, um projeto que durou 44 anos. | ||
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Professor durante muitos anos no Rio de Janeiro, Rónai lecionou no Colégio Metropolitano de 1941 a 1943 e no Liceu Francês de 1941 a 1949. Deu aulas de francês e latim em escolas municipais entre 1941 e 1977. Professor do Colégio Pedro ii desde 1952, torna-se catedrático de francês em 1958, alcançando o 1º lugar em concurso acompanhado pela imprensa. Foi também catedrático da Faculdade de Humanidades Pedro ii entre 1974 e 1977, fundando a Associação dos Professores de Francês do Rio de Janeiro, alguns anos depois. Dessa experiência como professor, Rónai publica alguns livros muito conhecidos por alunos de letras: Gramática completa do francês (1969), Não perca o seu latim (1980), Gradus primus (1985) e Gradus secundus (1986). Seu primeiro trabalho importante no Brasil foi a organização da tradução de A comédia humana, de Honoré de Balzac, para o português, um projeto da Editora Globo de Porto Alegre. Em 1944, a convite do gerente da Globo no Rio, Maurício Rosenblatt (informado sobre a especialidade de Rónai em língua e literatura francesa, com sua tese defendida sobre Balzac), Rónai aceitou coordenar a tradução.
O trabalho já havia começado e coube a ele
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Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Leonídio Balbino da Silva e Paulo Rónai | |
| dar uniformidade aos romances e contos já traduzidos, além de contratar novos intelectuais para dar continuidade à empreitada. Participaram do projeto, ao todo, 14 tradutores, entre os quais Brito Broca, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana. Para contextualizar o leitor brasileiro a respeito da França da época de Balzac, Rónai elaborou mais de 7 mil notas de rodapé para os 89 livros da Comédia humana e escreveu os prefácios de cada uma das suas obras, pois julgava insuficiente apenas uma apresentação geral do conjunto. O projeto, composto por 17 volumes, com a primeira publicação em 1945, levou dez anos para ser concluído. “Um monumento editorial”, como observou Nelson Ascher, em texto na Folha de São Paulo, em 1999.
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Rónai, Paulo; Rosa, João Guimarães (pre). Antologia do conto hungaro. 3 ed. Rio de Janeiro, Brasil: Artenova, 1975. xxix,280 p. Coleção Lygia Fagundes Telles. | Outro trabalho de Rónai que merece destaque é a tradução de contos magiares reunidos na Antologia do conto húngaro, publicado em 1957, com prefácio de seu amigo João Guimarães Rosa. Por ser uma língua pouco acessível, mesmo na Europa, como diz Rónai, “por causa de seu meio de expressão”, há pouca difusão da sua literatura em outras línguas. Declara o próprio tradutor da Antologia: “Nasceu este volume do desejo de contar ao Brasil, minha pátria de adoção, a Hungria, país onde nasci e me criei, fui feliz e sofri, e de onde me exilei sem trazer outro patrimônio a não ser uma cultura”. Vasta cultura, por sinal. Em Pequena palavra, prefácio da antologia, escreve acertadamente Guimarães Rosa: “Este é um livro feito com competência e com amor. Seu autor – o brasileiro Paulo Rónai – é um húngaro, de nascimento e de primeira nação; sabe os dois idiomas, dum dos quais para o outro transpôs, perfeitas, as trinta estórias dos dezoitos autores presentes. Sendo mesmo que foi por, um dia, em Budapeste, sozinho e espontâneo, ter aprendido o português, e traduzido e publicado também em antologia alguns poetas nossos, que ele a bem dizer começou a ficar brasileiro. (...) Tão a maior, sobre tanto, foram motivos de saudade de gratidão que trouxeram Rónai a dar-nos, neste conjunto de contos – que ele com alma de esforço buscou, escolheu, traduziu – um pouco e muito de seu país de origem: ‘um retrato poético da Hungria’ ”. | |
| O oficio da tradução e pioneirismo no Brasil
Pioneiro na reflexão sobre o ofício de traduzir no Brasil, o trabalho de Paulo Rónai não ficou restrito ao campo prático da tradução. Exerceu grande influência sobre o assunto e foi um grande militante da classe de tradutores, atividade não reconhecida como profissão àquela época.
Com a publicação de Escola de tradutores, em 1952, Rónai inaugura um diálogo antes negligenciado pelos pensadores e estudiosos das línguas no Brasil. Também na Europa seu trabalho teórico passa a ser conhecido e estudado. Este livro, a princípio com sete artigos, publicado pelo Ministério da Educação e Saúde, tratava de assuntos ligados à prática e à teoria da tradução. Explica o autor na “Advertência à 5º edição”, de 1987, já composta por 21 artigos: “Este livro nasceu da reunião de alguns artigos sobre assuntos de tradução; daí o seu caráter algo fragmentário e alinhavado. Que, apesar disto, tenha quatro edições esgotadas deve explicar-se pela ausência de trabalhos em português sobre o assunto cuja relevância vem sendo reconhecida”. | ||
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Rónai não foi apenas um teórico que tentava apresentar soluções a quem se aventurasse na difícil tarefa de traduzir, mas um intelectual que expunha suas experiências tiradas do confronto direto com os textos, das armadilhas da linguagem das quais precisava se desviar. O ensaísta considerava que o trabalho da tradução é algo que se aprende e se aprimora na prática.
A função do tradutor deveria ser reconhecida como profissão, e Rónai lutou muito para este ideal se concretizar. Defendia a criação de cursos universitários para a capacitação dos profissionais e a criação de um órgão que os representasse. Suas idéias, sempre acompanhadas de ações, mudaram a concepção desta arte. Corresponde-se desde a década de 1950 com membros da diretoria da fit (Federação Internacional de Tradutores). Funda em maio de 1974, apoiado pela Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a Abrates – Associação Brasileira de Tradutores, com sede no Rio de Janeiro e filiada a fit.
Em sua vida, sempre atuante em prol da cultura, recebeu vários prêmios, entre eles:
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Rónai, Paulo. Escola de tradutores. 5 ed., rev., aum. Rio de Janeiro, Brasil: Nova Fronteira; INL, 1987. 171 p. Coleção Lygia Fagundes Telles.
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• Prêmio Internacional C. B. Nathorst (1981) da fit;
• Título de primeiro sócio benemérito da Abrates;
• Prêmio da Ordem de Rio Branco do governo brasileiro;
• Prêmio da Palmes Académiques e Ordre National du Mérite, do governo francês;
• Prêmio da Ordem da Estrela com Coroa de Ouro, do governo húngaro;
• Prêmios Sílvio Romero e Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.
Paulo Rónai foi responsável por mais de cem prefácios e apresentações de escritores brasileiros e estrangeiros. Escreveu, além de Escola de tradutores (1952), A tradução vivida (1981), um prolongamento do primeiro livro, como lembra o autor; Como aprendi o português e outras aventuras (1956); Seleta de João Guimarães Rosa (1973), como organizador; Não perca o seu latim (1980); Dicionário francês-português (1980); Mar de histórias: antologia do conto mundial, com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1945). Colaborou em diversos periódicos, traduções e antologias. É dele também uma tradução de Memórias de um sargento de milícias (1944), de Manuel Antonio de Almeida, para o francês e a tradução de Os meninos da rua Paulo (1971), do húngaro Ferenc Molnár. | ||
| Família A guerra fez o magiar se separar de sua família na Hungria - seus pais, irmãos e a noiva não conseguiram sair da Europa na época. Depois de muitas dificuldades, conseguiu trazer a mãe e as irmãs para cá. O pai morrera doente na Hungria. Rónai tenta em 1942 trazer também a noiva para o Brasil, casando-se com ela mediante uma procuração, mas ela é presa antes de conseguir sair de Budapeste e morta num fuzilamento, às margens do Danúbio. | ||
| No Brasil, Rónai conhece Nora Tausz, em novembro de 1951. Ela, judia italiana nascida em Fiume, foge para o Rio de Janeiro no mesmo ano em que Rónai desembarca no Brasil. Casam-se em 9 de fevereiro de 1952. Nora, arquiteta e professora, ilustrou vários livros do ensaísta. Rónai declara em entrevista a Nelson Ascher: “Nora foi o fato mais importante da minha vida, junto de minhas filhas Cora e Laura”. Cora é hoje jornalista, e Laura, flautista e crítica de música. Em 1977, Paulo Rónai muda-se para o sítio “Pois é” em Nova Friburgo para tratar melhor de um problema de saúde. Lá, vive em mundo cercado de alegrias e livros. |
Paulo Rónai e sua esposa, Nora Tausz
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Comenta Gilberto Mendonça Telles, na orelha do livro de ensaios de Rónai que leva o nome do sítio: “E ali – é sua netinha quem o diz – não há nenhuma biblioteca, mas uma brilhoteca; e o ar condicionado – no dizer de seu netinho – é simplesmente um ar com dicionários”.
O Instituto Moreira Salles presta aqui uma homenagem a Paulo Rónai. Falecido em 1º de dezembro de 1992, deixou, além do imenso número de trabalhos, um exemplo de amor e dedicação ao estudo da língua e literatura e um legado a respeito da tradução que serve de base para os estudos e a orientação sobre esta arte de verter espíritos e signos lingüísticos.
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Paulo Rónai na Biblioteca de seu Sítio “Pois é” |
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Bibliografia
ESQUEDA, Marileide Dias. O tradutor Paulo Rónai: o desejo da tradução e do traduzir. Campinas, São Paulo: [s.n.], 2004
RÓNAI, Paulo. Como aprendi o português e outras aventuras. São Paulo: Globo, 1992
___________. Escola de tradutores. 5º ed. ver. ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/INL, 1987.
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Pesquisa: Sérgio Barbosa da Silva e Maria Inês Rivaben Ricci
Texto: Sérgio Barbosa da Silva




